Shirley, nossa saudosa irmã, era uma excelente contadora de histórias, que quando engraçadas, gostava ela mesma de rir primeiro. Gostávamos, como os povos primitivos em volta de suas fogueiras, de nos reunir em volta de nossas mesas ou cadeiras da vez, para nos deliciarmos e rirmos de nossas aventuras e desventuras.
Eis uma das boas:
Conta ela: "Ia eu pelas redondezas de casa, para fazer alguma coisa de que não me lembro, mas aquele dia particularmente as ruas estavam desertas. Bom, para não dizer totalmente desertas, tinha eu e, no outro lado da calçada, dois carinhas me olhando. Claro, estranhei, o que dois carinhas olhavam tanto para uma senhora como eu? A resposta veio rápida. Um deles falou: "Vamos na velha". - como só éramos nós três, ali naquele pedaço, o óbvio ululante era que a velha era eu mesma. Olhei pra eles. Eles ficaram parados e olhando também. Apertei o passo, eles também. "Ai Jesus",- disse pra mim. Não sei se pelo temor, eu não vi sinal de que alguém pudesse me acudir. Era coisa de muitos poucos minutos e poucos minutos são uma eternidade para a planejar uma rota de fuga. Não aparecia ninguém ou eu, no sufoco, não via ninguém? Dei uns passinhos indecisa,e nesse instante vi uma senhora abrindo o portão de uma casa próxima. Era uma providencial vizinha, bom, uma daquelas vizinhas que você só vê uma vez na vida, outra na morte. Ainda bem que foi na vida. - Posso entrar ? perguntei - Ela fez sim com cara de quem não estava entendendo,e entrei na varanda dela. Ela percebendo meu estado, perguntou: - houve alguma coisa? Um copo dágua? - Aceitei e enquanto ela foi buscar, botei os olhos para a rua, não vi mais os caras . Ela voltou- Aqui sua água, tudo bem? Te conheço, professora, do (colégio) Baltazar, né? Vejo você passar de vez em quando, mas você está tão assustada... -Sim, respondi dando goles rápidos - as ruas estão muito desertas né? - Claro, amiga, é feriado!Nossa Senhora Auxiliadora - Feriado? Ah como sou desligada, é mesmo!- Ela riu e fez um gesto para que eu me sentasse. - Percebi que o gesto foi por delicadeza, porque estava com uns rolinhos no cabelo e creme na cara e, não propriamente pronta para "fazer sala". - Não, muito obrigada, não quero incomodar - agradeci meio formal. Ela respondeu - nada, tenho um aniversário hoje, mas só mais tarde, fica à vontade. - A senhora me desculpa, é que tinha uns caras me olhando, achei que estavam mal intencionados - eu disse, já me adiantando para sair. - É, hoje em dia tem que ficar muito atenta, esses tempos estão difíceis, olha que eu sempre vou conferir o portão, sorte sua... - Sorte mesmo, muito obrigada. E fui saindo - Te acompanho até o portão. Conferimos a rua e não havia sinal deles.- Não tem nada estranho não, pode ir - ela disse. Agradeci de novo e resolvi abandonar o projeto de que não me lembro, e voltar pra casa, mais relaxada. Mas eis que, ao dobrar a esquina, quem eu vejo? A temida dupla! - Não adianta, pensei, quando tem que ser, tem que ser! - Aí eles vieram se aproximando na mesma calçada e mais rápido. Atravessei e fiz um movimento de retorno, quando, quem me aparece, de repente, há alguns metros à frente? Jesus! Mais do que depressa, gritei e acenei sem parar: Jesus! Jesus! Jesus! - Os caras, ao verem aquela figura alta, magra, cabelão nos ombros, tez pálida, vestido numa túnica branca hiponga, sorrindo e estendendo os braços para mim, sumiram esbaforidos. Nunca pensei um dia pensar estar sob uma proteção exclusiva de Jesus!
Bom, um detalhe tenho que contar: o Jesus em questão era um ex-aluno meu, o apelido era devido à grata semelhança, mas vamos considerar: esse dia não estaria predestinado ao Jesus cópia cumprir sua missão, a mando do Jesus original ? "



