quinta-feira, 7 de maio de 2020

O que é paciente de alta complexidade


Shirley em bom momento no Placi*

Em março de 2017, minha irmã teve sua primeira internação, quando sofreu uma síndrome respiratória aguda, por pneumonia grave, agravada pela DPOC – Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica. Estávamos em tempos “normais”. Como o quadro era gravíssimo, foi entubada e, na impossibilidade de permanecer muito tempo nesta situação, optaram por procedimento de traqueostomia (TQT), para acesso de ventilação mecânica e, posteriormente, pela gastrostomia (GTT), uma via de alimentação por sonda direta no estômago. Da primeira emergência até sua alta para o regime de homecare, ela alternou  períodos de intercorrências ou procedimentos com tratamento em domicílio e, apesar do quadro grave, obteve uma sobrevida de dois anos e oito meses, quando pôde estar no convívio com familiares e amigos. Veio a falecer em dezembro de 2019.
             Essa introdução é para dar uma ideia básica do que seja um paciente de alta complexidade, não do ponto de vista técnico, é claro, mas do experimentado. O que representa, em termos de recursos, um aparato  gigantesco, mas necessário para manter-lhe a sobrevida. No caso do COVID19, como recurso para aquele paciente que não consegue sair da entubação, a traqueostomia pode ser  indicada,  porém, além desses recursos, requer atenção exclusiva de uma equipe, o que só é possível pontualmente.
          Alguns termos e nomenclaturas são conhecidos, outros parecem difíceis, mas ao longo do tempo, nos familiarizamos com alguns deles. Vamos por categorias* (e ordem alfabética):

 Equipamentos - aparelhos de ambiente e específicos:
  Aparelho de pressãoAr condicionado ( máximo até 22º,) - Aspirador de TQT (aparelho que se liga ao tubo da tráqueo para retirar secreção que se acumula nos pulmões)- Balas de oxigênio (o mesmo que cilindros, em geral três) - Bipap ou Cpap (aparelho que controla o nível de  entrada de oxigênio automaticamente, sem precisar suprir todo o ar que o paciente precisa e ajudá-lo a respirar). - Cadeira higiênicas (cadeira para banho) -Cadeira de rodas - Cama elétrica (com regulação de altura e inclinação) – Comadre- Concentrador (equipamento que retira o ar do meio ambiente e o filtra) – Equipamentos de fisioterapia respiratória e de membros(diversos) para evitar a perda muscular-Estetoscópio - Macronebulizador ( conjunto  para nebulização  ligado direto ao cilindro) - Nebulizador elétrico- Nobreak (gerador à bateria, que entra em  operação na queda eventual de luz)- Oxímetro (mede a saturação de oxigênio)- Ressuscitador manual c máscara (Uma bomba para queda brusca de oxigênio também chamado de ambu)- Tira-glicemia - Umidificador de ar (para ambientes com secura por  condicionador de ar)- Ventilador mecânico (mais em ambiente hospitalar).


Insumos
Agulhas para seringas- Água destilada – Algodão - Aventais/capas descartáveis - Aerocâmara para puffs- Cateter intravenoso - Colar fixador de TQT- Coletor de lixo hospitalar - Conectores (reto e T) - Colchão pneumático Coletor universal estéril- Conjunto Macronebulização (copo/filtro/máscara) - Cufômetro, Efexor - Equipo endovenoso infusor/ 2 vias- Extensor para aspiração- Fita hipoalérgica – Filtro umidificador bacteriano - Fraldas geriátricas - Gaze estéril e não estéril - Garrote látex - Haste swab -  Insumos para tira-glicemia - Lenço umedecido - Luva cirúrgica/ de procedimento/plástica estéril-  Máscaras de prolipropileno - Roupas de cama especiais-Suporte de soro- Seringas sem agulha/seringas com agulhas- Sondas de aspiração- Swabe álcool -Suporte para soros - Termômetro clínico- Tubo corrugado - Uro stop- Válvula de TQT.

Ambulâncias para o deslocamentos casa-hospital, com médico e paramédico. 

Medicamentos  ( uns de uso contínuo e outros “SOS”, uns com as mesmas, outros com diferentes indicações, alguns administrados mais de uma vez, e de acordo com o quadro clínico. Apenas para manter o quadro respiratório e clínico estáveis, e proporcionar-lhe  conforto ) :
Acetilcisteína (ampola e envelope) – Alprazolam – Aristab – Atrovent - Azitromicina – Azoft colírio- Bamifix – Bromoprida – Captropril – Clorexidina – Cloridrato de Cefepima  – Cloreto de sódio(soro) - Duovent (inalatório)- Dimorf –Dermaex (tópico)- Dimeticona- Dipirona sódica – Eritromicina - Fenoterol (inalatório)- Floratil – Humolin (injt.) – Lidocaína intram. – Mirtazapina – Movilax - Novolin – Pantoprazol - Prednisona – Quetiapina – Reparil tópico - Symbcort –Tiorfan- Venlafaxina- Versani tópico.

Suplementos alimentares para GTT e produtos de higiene e assepsia, além dos utilizados no hospital, como outros antibióticos e anticoagulantes,  não incluídos aqui.

Pessoal No hospital o padrão são médicos, enfermeiros e técnicos, fisioterapeutas, pessoal de laboratório e imagem;  em domicílio: médicos, enfermeiras, técnicos de laboratório particulares, técnicos de enfermagem (plantonistas), fisioterapeutas, fonoaudiólogos, dentistas, oftalmologistas, nutricionistas e terapeutas ocupacionais e de saúde mental.

A sobrevida, embora limitada, manteve-a lúcida, até os órgãos apresentarem falência. A DPOC é incurável, mas muitos acometidos permanecem estáveis até idade bem avançada. Minha irmã tinha 73 anos.

Nota Ver http://sbccp.org.br/artigos-cientificos-para-covid-19/(Sociedade Brasileira de Cirurgia de Cabeça e Pescoço).
*Equipamentos, insumos e medicamentos listados foram pesquisados nas notas de entrega do Homecare.
 *Placi é um hospital de Cuidados Extensivos, em NiteróiRJ

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