segunda-feira, 16 de março de 2020

Como me tornei bibliotecária pela segunda vez


                             
Resultado de imagem para bibliotecas desenhoComemoramos, no último dia 12 de Março, a nossa data e, como todas as datas profissionais  servem para a gente se perguntar porque você mesma se enveredou por esse ofício, resolvi fazê-lo. A primeira coisa que me ocorreu ter “amor por livros e leitura”; a segunda é que meu temperamento pacato cabia em uma profissão assim; a terceira era a curiosidade que você podia saciar todos os dias. Sim, eu preenchia esses requisitos  mas, ao longo do tempo, vi que eram requisitos flexíveis. Primeiro, que nem todos os bibliotecários  eram leitores habituais; segundo que, tenha o  temperamento que tiver, não tem como fugir ao teste da sociabilidade, ora com o público, ora com colegas, ora com a gestão. Por último, por mais curioso que você seja, não haverá tempo para suprir a curiosidade.
Ao me formar, vi-me embaraçada com códigos e normas na cabeça, dos quais  não podia me descolar, sem prejuízo de me ver reprovada em concursos e provas de seleção. E numa dessas provas, novata, caí num departamento de informática (na época Processamento de Dados) de empresa estatal. Era o ano de 1971! Na nossa área era um tempo de transição  das vetustas fichas catalográficas, que se multiplicavam nos arquivos de muitas bibliotecas;  para nós,  os também pouco menos  vetustos e alentados relatórios impressos, que vinham de um processo complexo de preenchimento de formulários, para   depois a operação de enormes lotes de fichas perfuradas (sim, eu as vi!), a armazenarem em rolos e mais rolos de fita magnética e, ufa!, finalmente,  uma impressora IBM, dava oponto final, todos equipamentos enormes, mastodontes. Mas compensaram,  não me queixo, eles produziam ótimos e  pesados catálogos de autor, título e assunto; a trabalheira era dos técnicos para atualizar os backups. Pouco antes de eu sair, entre meados dos anos 80 e início de 90, começaram a vir a nós os miúdos PCs e a maravilha  Windows, mas vejam vocês, não cheguei a deixar nem os vetustos relatórios, nem pegar o auspicioso PC ou microcomputador! A estatal se esfarelou. Tanta coisa aconteceu que nem percebi os vinte anos que passaram , nem me lembrei de questionar o to be or not to be. Eu sentia um vago vazio que me impulsionou  a estudar Ciências Sociais, para fugir da aridez técnica e buscar mais, digamos, humanidade na profissão. Não demorou, lá estava eu numa biblioteca comunitária e não tardou a piscar a luzinha da resposta. Depois, veio o concurso para as bibliotecas populares do Município de Niterói e a luz ficou mais forte. Confesso que vim a me reconciliar de verdade  com a profissão, quando me envolvi nessas últimas experiências. Foi como  me tornar bibliotecária pela segunda vez.   E era muito mais simples do que  podia supor.  Constatar como aquele ambiente, que oferece o mundo a pessoas  com pouco ou nenhum acesso a livros,  é fundamental, quando elas passam a incorporar, espontaneamente, a ida à biblioteca ao seu cotidiano. Aí você percebe a razão de ser de sua profissão.

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