domingo, 10 de maio de 2020

Conversa com o Corona

Vinha eu,em meu sonho, percorrendo uma bela trilha, cheia de árvores, num dia lindo de sol,  e  cheio de borboletas azuis , quando  do farfalhar dos arbustos, quem me surge?  Nada menos que o Corona vírus, em pessoa!  Dei um salto, coração na mão,olhei pros lados para ver por onde escapava, mas logo ouvi sua voz, suave, por sinal:
Vetores de Ilustração Vetorial Do Vírus Do Vírus Do Coronavírus e ... - Calma, senhora.  O pânico piora as coisas...
. Ele devia ter  pouco menos de 1, 50 de altura, menor que eu um pouco, sua barriga subia e descia, parecia de borracha - será que é um robô e alguém estaria me fazendo uma pegadinha? - pensei, mas só balbuciei:
 - Co...co...
 - COVID-19, prefiro assim, com nome e sobrenome, ele disse.
Recuperei o ar para perguntar, meio que formalmente:
- Seu COVID, o que o traz aqui pelas minhas redondezas?
Ele tirou de dentro de uma das  ventosas um celular,em meio a meu assombro:
- Vejo que o GPS daqui tem certas inconsistências, procuro um endereço...
- Mas o senhor tem celular...
- Nessa velocidade com que me espalho,  queria que eu não tivesse celular?
Ele me estendeu a telinha do celular. Eu só avancei com o rosto para ver, ainda tremendo.
- A senhora não precisa tremer. Ainda  não.
Quando olhei o endereço, com aquele ainda  na minha cabeça,  constatei que era o meu.
-Mas esse é o  meu  endereço!
- Prazer, senhora.
Recuei meu corpo. - então o senhor veio me buscar?
- Calma, sou o representante do COVID Corp para a América latina, Brasil. Vim entrevistá-la.
- Ãhn, Corp, quer dizer, uma empresa?
Ele abriu um bocão.Não vi dentes, só uma abertura escura. Deu uma gargalhada.
- Calma, estudamos as condições  apropriadas para o nosso sucesso, tanto em relação às pessoas, quanto países.O Brasil é promissor.
- O que quer dizer promissor, vcs estão matando idosos e pessoas vulneráveis !
-  Não nos culpem! - vi que ficou irritado - Nossa missão é fazer o mundo olhar para novas perspectivas.
- Como assim?
- Não nos culpem. Se estão morrendo idosos e vulneráveis, é porque não tiveram uma assistência médica adequada.Nem saneamento, nem previdência, se alimentam mal  e se aglomeram por qualquer coisinha.
- Mas aqui  temos o SUS, referência em vacinas, transplantes...
- Sim, mas despreparado para pandemias, avaliamos.
- Rá, mas também teve rico que faleceu...
- Não tinham dieta adequada, sedentários, estressados ...
- Espera, mas todos eram  assim?
- Bom, as vezes há uma certa margem de erro. Mas aproveito que encontrei a senhora ,e entrevisto logo. Vejamos... - consultou o celular.
 - Hum, a senhora é nº 30046/19 e  está no padrão médio,  não tem cardiopatia, não é diabética nem hipertensa, hum, fez duas cirurgia dos rins, é sedentária ...
- Isso quer dizer que tenho alguma chance?
- Vou consultar meu chefe. hãn, futuca o celular - Espero ansiosa pela resposta.
- Ok, chefe, missão abortada. Ir para área Znit24230, ok.
Eu sorri aliviada com a "missão abortada". Ele pegou uma espécie de  apito de outra de suas ventosas. Não saiu nenhum ruído, mas era como se chamasse os outros.  Levantei o dedo, tímida..
- Mas antes do senhor ir,  posso saber uma coisinha?
 Ele abanou a cabeça .- Vai. Não posso perder tempo.
- Qual a sua missão?
- Mudar os valores. Sem mais - e foi desaparecendo. Ainda gritei:
- Senhor Covid! Senhor Covid! E essa tal Corp , de onde é, da China?
- Mesmo sem quase ver sua imagem, ainda ouvi: - tente uma galáxia!
Acordei.
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Crédito da imagem Criador: sebastian coll
Crédito: Getty Images/iStockphoto

Soneto (Gêmeas)

Hoje, 13 de junho de 2024, nosso aniversário, não poderia ser outra a homenageada. Minha irmã Shirley . Dedico, nesse dia, à minha inesquecível irmã, e a sua presença em minha vida,  um soneto de nosso pai,  que diz assim:

                                                                                                                                                         GÊMEAS*


Nasceram juntas . Ambas pela estrada,
 áspera e agreste, rude e poeirenta,
vão vencendo os escolhos da tormenta,
desta vida tão dura e requestada

Uma inquieta, como a  passarada,
outra tristonha como ave sedenta;
uma tem a beleza da balada,
outra um encanto a cada instante inventa!

Gêmeas de meu colar de fantasias,
arabescos de amor vãos e imprecisos,
dão luz e cor à paz de uma velhice.

Minhas horas se foram tão vazias,
estiveram repletas dos sorrisos 
e sonatas da meiga garrulice!



 Gomes, Jary. Da juventude ao ocaso. Niterói, [do autor] , 1990


quinta-feira, 7 de maio de 2020

O que é paciente de alta complexidade


Shirley em bom momento no Placi*

Em março de 2017, minha irmã teve sua primeira internação, quando sofreu uma síndrome respiratória aguda, por pneumonia grave, agravada pela DPOC – Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica. Estávamos em tempos “normais”. Como o quadro era gravíssimo, foi entubada e, na impossibilidade de permanecer muito tempo nesta situação, optaram por procedimento de traqueostomia (TQT), para acesso de ventilação mecânica e, posteriormente, pela gastrostomia (GTT), uma via de alimentação por sonda direta no estômago. Da primeira emergência até sua alta para o regime de homecare, ela alternou  períodos de intercorrências ou procedimentos com tratamento em domicílio e, apesar do quadro grave, obteve uma sobrevida de dois anos e oito meses, quando pôde estar no convívio com familiares e amigos. Veio a falecer em dezembro de 2019.
             Essa introdução é para dar uma ideia básica do que seja um paciente de alta complexidade, não do ponto de vista técnico, é claro, mas do experimentado. O que representa, em termos de recursos, um aparato  gigantesco, mas necessário para manter-lhe a sobrevida. No caso do COVID19, como recurso para aquele paciente que não consegue sair da entubação, a traqueostomia pode ser  indicada,  porém, além desses recursos, requer atenção exclusiva de uma equipe, o que só é possível pontualmente.
          Alguns termos e nomenclaturas são conhecidos, outros parecem difíceis, mas ao longo do tempo, nos familiarizamos com alguns deles. Vamos por categorias* (e ordem alfabética):

 Equipamentos - aparelhos de ambiente e específicos:
  Aparelho de pressãoAr condicionado ( máximo até 22º,) - Aspirador de TQT (aparelho que se liga ao tubo da tráqueo para retirar secreção que se acumula nos pulmões)- Balas de oxigênio (o mesmo que cilindros, em geral três) - Bipap ou Cpap (aparelho que controla o nível de  entrada de oxigênio automaticamente, sem precisar suprir todo o ar que o paciente precisa e ajudá-lo a respirar). - Cadeira higiênicas (cadeira para banho) -Cadeira de rodas - Cama elétrica (com regulação de altura e inclinação) – Comadre- Concentrador (equipamento que retira o ar do meio ambiente e o filtra) – Equipamentos de fisioterapia respiratória e de membros(diversos) para evitar a perda muscular-Estetoscópio - Macronebulizador ( conjunto  para nebulização  ligado direto ao cilindro) - Nebulizador elétrico- Nobreak (gerador à bateria, que entra em  operação na queda eventual de luz)- Oxímetro (mede a saturação de oxigênio)- Ressuscitador manual c máscara (Uma bomba para queda brusca de oxigênio também chamado de ambu)- Tira-glicemia - Umidificador de ar (para ambientes com secura por  condicionador de ar)- Ventilador mecânico (mais em ambiente hospitalar).


Insumos
Agulhas para seringas- Água destilada – Algodão - Aventais/capas descartáveis - Aerocâmara para puffs- Cateter intravenoso - Colar fixador de TQT- Coletor de lixo hospitalar - Conectores (reto e T) - Colchão pneumático Coletor universal estéril- Conjunto Macronebulização (copo/filtro/máscara) - Cufômetro, Efexor - Equipo endovenoso infusor/ 2 vias- Extensor para aspiração- Fita hipoalérgica – Filtro umidificador bacteriano - Fraldas geriátricas - Gaze estéril e não estéril - Garrote látex - Haste swab -  Insumos para tira-glicemia - Lenço umedecido - Luva cirúrgica/ de procedimento/plástica estéril-  Máscaras de prolipropileno - Roupas de cama especiais-Suporte de soro- Seringas sem agulha/seringas com agulhas- Sondas de aspiração- Swabe álcool -Suporte para soros - Termômetro clínico- Tubo corrugado - Uro stop- Válvula de TQT.

Ambulâncias para o deslocamentos casa-hospital, com médico e paramédico. 

Medicamentos  ( uns de uso contínuo e outros “SOS”, uns com as mesmas, outros com diferentes indicações, alguns administrados mais de uma vez, e de acordo com o quadro clínico. Apenas para manter o quadro respiratório e clínico estáveis, e proporcionar-lhe  conforto ) :
Acetilcisteína (ampola e envelope) – Alprazolam – Aristab – Atrovent - Azitromicina – Azoft colírio- Bamifix – Bromoprida – Captropril – Clorexidina – Cloridrato de Cefepima  – Cloreto de sódio(soro) - Duovent (inalatório)- Dimorf –Dermaex (tópico)- Dimeticona- Dipirona sódica – Eritromicina - Fenoterol (inalatório)- Floratil – Humolin (injt.) – Lidocaína intram. – Mirtazapina – Movilax - Novolin – Pantoprazol - Prednisona – Quetiapina – Reparil tópico - Symbcort –Tiorfan- Venlafaxina- Versani tópico.

Suplementos alimentares para GTT e produtos de higiene e assepsia, além dos utilizados no hospital, como outros antibióticos e anticoagulantes,  não incluídos aqui.

Pessoal No hospital o padrão são médicos, enfermeiros e técnicos, fisioterapeutas, pessoal de laboratório e imagem;  em domicílio: médicos, enfermeiras, técnicos de laboratório particulares, técnicos de enfermagem (plantonistas), fisioterapeutas, fonoaudiólogos, dentistas, oftalmologistas, nutricionistas e terapeutas ocupacionais e de saúde mental.

A sobrevida, embora limitada, manteve-a lúcida, até os órgãos apresentarem falência. A DPOC é incurável, mas muitos acometidos permanecem estáveis até idade bem avançada. Minha irmã tinha 73 anos.

Nota Ver http://sbccp.org.br/artigos-cientificos-para-covid-19/(Sociedade Brasileira de Cirurgia de Cabeça e Pescoço).
*Equipamentos, insumos e medicamentos listados foram pesquisados nas notas de entrega do Homecare.
 *Placi é um hospital de Cuidados Extensivos, em NiteróiRJ

terça-feira, 14 de abril de 2020

Eu imagino o que você diria (de Sheila@Terra para Shirley@Céu)

(Inspirado em crônicas de Elio Gaspari, "conversando" com pessoas que partiram deste mundo)

Planeta Terra, Abril de 2020 

                                           
Como o coronavírus vai ganhar um novo nome e por que isso é ...
Minha querida irmã. Abril terminando e eu relutando em ter essa conversa com você porque é triste, mas aí vai. Por pouco, muito pouco  tempo mesmo, você não viu algo impensável e  tão  avassalador, que hoje atinge os povos desse planeta. Uma nova pandemia! Você diria, com seu jeito direto: - "pandemia, mas quantas não tivemos? As pragas bíblicas, a peste negra, a varíola, a pólio, a espanhola, o Ebola,  a  suína, enfim..." -   Mas, essa, minha irmã,  é uma terrível mutação, o novo Coronavírus chamado também  COVID-19 ou SARS-Cov2. Com tantos nomes pomposos  e tantos estragos, o carrasco  avança sobre todos, como uma sombra. E sua marca letal é a síndrome respiratória aguda. Você diria, do alto de sua experiência: - "Sei muito bem o que é insuficiência respiratória, aparelhos de oxigênio, bpaps, cpaps, concentradores, ventiladores, aspiradores,  filtros, oxímetro, cânulas  e aquela parafernália toda... mas vai passar, outras tantas não passaram?". Sim, passará, mas difícil tirar de sua retina a imagem das ruas vazias, a solidão das pessoas trancadas em casa, a distância a guardar, o silêncio das cidades, quebrado por sirenes e megafones gritando "fiquem em casa!".  E você acrescentaria - "pra mim não fazia diferença, afinal, lembra que eu disse um dia a vocês que "meu verbo era ficar"? -  Mas a molécula do diabo, além de penetrar nas mucosas, se espalha sobre objetos, superfícies de qualquer natureza. Luvas, água e sabão, álcool em gel, máscaras, em pouco mais de um mês se tornaram as estrelas da sobrevivência, somadas ao isolamento. Ativa mesmo somente  uma aldeia gigante de médicos, paramédicos, engenheiros, especialistas, frenéticos, confinados em suas bolhas, nas unidades de saúde, hospitais, laboratórios, ambulâncias, fábricas de insumos e medicamentos. E a mídia de plantão, por dever de ofício, com a narrativa macabra da entrada de enfermos como fornadas de pão e os números da morte. Nas ruas, batalhões de agentes de todo tipo, trabalhando com tudo o que é essencial, somente o essencial. Outro tanto prestando solidariedade aos mais atingidos, os mais pobres. Uma paradeira e ao mesmo tempo, um frisson sinistro. Quando que você pensaria viver uma realidade dessa, nesse mundão sedento de consumo e badulaques? Algo nunca visto, minha irmã, nunca! Vejo logo você dizendo: - "De essencial eu entendo, nos últimos anos, pra mim, um simples passear no corredor, sentar, um  banho rápido, um gole d´água, as mínimas coisas, era  tudo que eu podia curtir. A  minha maior alegria foi a presença de vocês"- Pois é, sequer as famílias podem visitar seus doentes, você nem ia abraçar seus netos como abraçou, suas filhas como abraçou; e nem mesmo ser velada, as pessoas não podem velar seus mortos, porque o contágio vai além da morte! As imagens  do batalhão de amigos e parentes, que compareceu à sua despedida, eram tantos, que hoje seria impossível acontecer. Como pensar  que, um dia estamos sadios e, no seguinte, entubados, pelos corredores de hospitais, sem nenhum acompanhante.. Até o momento, irmã, o Corona já colecionou  milhões e já devorou, insaciável, mais de centenas de mil vidas, diante de uma humanidade atônita. Mas vejo você, me dizendo: - "sei que você é cética, mas será que não é o prenúncio do fim-do-mundo, e esse vírus não é só um mensageiro de Deus? Ainda bem que fui embora antes" -  E eu, com a minha visão  que você chamava de "materialista" responderia - "Nada,  isso é consequência do que fazemos  com o planeta. Pode apostar; o  vírus vem da manipulação de animais silvestres". Você faria uma muxoxo, e diria, laconicamente: - "Não sei, eu prefiro  rezar por vocês e por todos aí na terra" E eu ainda mandaria a   frase de Saint-Éxupéry, "o  essencial  é invisível para os olhos"...e você concluiria: -  "Deus também é invisível para os olhos. Até.."  E nos despediríamos.
.

"Conversa"  imaginária com  minha irmã Shirley que faleceu em dezembro de 2019, por insuficiência respiratória aguda,  causada por DPOC (Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica), antes que a COVID a levasse.

segunda-feira, 16 de março de 2020

Como me tornei bibliotecária pela segunda vez


                             
Resultado de imagem para bibliotecas desenhoComemoramos, no último dia 12 de Março, a nossa data e, como todas as datas profissionais  servem para a gente se perguntar porque você mesma se enveredou por esse ofício, resolvi fazê-lo. A primeira coisa que me ocorreu ter “amor por livros e leitura”; a segunda é que meu temperamento pacato cabia em uma profissão assim; a terceira era a curiosidade que você podia saciar todos os dias. Sim, eu preenchia esses requisitos  mas, ao longo do tempo, vi que eram requisitos flexíveis. Primeiro, que nem todos os bibliotecários  eram leitores habituais; segundo que, tenha o  temperamento que tiver, não tem como fugir ao teste da sociabilidade, ora com o público, ora com colegas, ora com a gestão. Por último, por mais curioso que você seja, não haverá tempo para suprir a curiosidade.
Ao me formar, vi-me embaraçada com códigos e normas na cabeça, dos quais  não podia me descolar, sem prejuízo de me ver reprovada em concursos e provas de seleção. E numa dessas provas, novata, caí num departamento de informática (na época Processamento de Dados) de empresa estatal. Era o ano de 1971! Na nossa área era um tempo de transição  das vetustas fichas catalográficas, que se multiplicavam nos arquivos de muitas bibliotecas;  para nós,  os também pouco menos  vetustos e alentados relatórios impressos, que vinham de um processo complexo de preenchimento de formulários, para   depois a operação de enormes lotes de fichas perfuradas (sim, eu as vi!), a armazenarem em rolos e mais rolos de fita magnética e, ufa!, finalmente,  uma impressora IBM, dava oponto final, todos equipamentos enormes, mastodontes. Mas compensaram,  não me queixo, eles produziam ótimos e  pesados catálogos de autor, título e assunto; a trabalheira era dos técnicos para atualizar os backups. Pouco antes de eu sair, entre meados dos anos 80 e início de 90, começaram a vir a nós os miúdos PCs e a maravilha  Windows, mas vejam vocês, não cheguei a deixar nem os vetustos relatórios, nem pegar o auspicioso PC ou microcomputador! A estatal se esfarelou. Tanta coisa aconteceu que nem percebi os vinte anos que passaram , nem me lembrei de questionar o to be or not to be. Eu sentia um vago vazio que me impulsionou  a estudar Ciências Sociais, para fugir da aridez técnica e buscar mais, digamos, humanidade na profissão. Não demorou, lá estava eu numa biblioteca comunitária e não tardou a piscar a luzinha da resposta. Depois, veio o concurso para as bibliotecas populares do Município de Niterói e a luz ficou mais forte. Confesso que vim a me reconciliar de verdade  com a profissão, quando me envolvi nessas últimas experiências. Foi como  me tornar bibliotecária pela segunda vez.   E era muito mais simples do que  podia supor.  Constatar como aquele ambiente, que oferece o mundo a pessoas  com pouco ou nenhum acesso a livros,  é fundamental, quando elas passam a incorporar, espontaneamente, a ida à biblioteca ao seu cotidiano. Aí você percebe a razão de ser de sua profissão.

domingo, 22 de dezembro de 2019

É Natal


   

   Tantos natais já vi passar. Muitos mesmo. E ao longo dos anos, todos com cara de um filme em preto-e-branco, cores que habitam o passado. Mas ela está na minha retina, ainda em cores vivas, tão recente se foi. Uma sensação estranha, uma aflição de bebê na ausência dos pais, mas que logo se acalma, porque algum sinal de retorno virá. Só que não há mais retorno. Só a sensação incômoda de não ter dito tudo, não ter feito tudo, não ter agradecido mais, abraçado mais, curtido mais, a sensação de que não deu tempo. Resta a memória ansiosa tentando recuperar a voz, tentando fruir de sua alma na leitura de seus textos e suas imagens, felizmente  ainda fartos.  
 Que venha o Natal que, de tempos em tempos, marca uma ausência, catalizador de dores e lembranças com todo seu alarido de festa. O Feliz Natal ou todas as ditas "datas felizes" dão a dimensão justamente de nossa carência de felicidade. 
 Que venha mais um Natal, subtraído dos que se foram. 
 Que venha o primeiro Natal sem você, minha irmã querida.





                                                                                           A Shirley 13/06/1946 -5/12/2019