quarta-feira, 2 de novembro de 2022
sábado, 4 de julho de 2020
Só Jesus na causa (histórias que Shirley contava)
Shirley, nossa saudosa irmã, era uma excelente contadora de histórias, que quando engraçadas, gostava ela mesma de rir primeiro. Gostávamos, como os povos primitivos em volta de suas fogueiras, de nos reunir em volta de nossas mesas ou cadeiras da vez, para nos deliciarmos e rirmos de nossas aventuras e desventuras.
Eis uma das boas:
Conta ela: "Ia eu pelas redondezas de casa, para fazer alguma coisa de que não me lembro, mas aquele dia particularmente as ruas estavam desertas. Bom, para não dizer totalmente desertas, tinha eu e, no outro lado da calçada, dois carinhas me olhando. Claro, estranhei, o que dois carinhas olhavam tanto para uma senhora como eu? A resposta veio rápida. Um deles falou: "Vamos na velha". - como só éramos nós três, ali naquele pedaço, o óbvio ululante era que a velha era eu mesma. Olhei pra eles. Eles ficaram parados e olhando também. Apertei o passo, eles também. "Ai Jesus",- disse pra mim. Não sei se pelo temor, eu não vi sinal de que alguém pudesse me acudir. Era coisa de muitos poucos minutos e poucos minutos são uma eternidade para a planejar uma rota de fuga. Não aparecia ninguém ou eu, no sufoco, não via ninguém? Dei uns passinhos indecisa,e nesse instante vi uma senhora abrindo o portão de uma casa próxima. Era uma providencial vizinha, bom, uma daquelas vizinhas que você só vê uma vez na vida, outra na morte. Ainda bem que foi na vida. - Posso entrar ? perguntei - Ela fez sim com cara de quem não estava entendendo,e entrei na varanda dela. Ela percebendo meu estado, perguntou: - houve alguma coisa? Um copo dágua? - Aceitei e enquanto ela foi buscar, botei os olhos para a rua, não vi mais os caras . Ela voltou- Aqui sua água, tudo bem? Te conheço, professora, do (colégio) Baltazar, né? Vejo você passar de vez em quando, mas você está tão assustada... -Sim, respondi dando goles rápidos - as ruas estão muito desertas né? - Claro, amiga, é feriado!Nossa Senhora Auxiliadora - Feriado? Ah como sou desligada, é mesmo!- Ela riu e fez um gesto para que eu me sentasse. - Percebi que o gesto foi por delicadeza, porque estava com uns rolinhos no cabelo e creme na cara e, não propriamente pronta para "fazer sala". - Não, muito obrigada, não quero incomodar - agradeci meio formal. Ela respondeu - nada, tenho um aniversário hoje, mas só mais tarde, fica à vontade. - A senhora me desculpa, é que tinha uns caras me olhando, achei que estavam mal intencionados - eu disse, já me adiantando para sair. - É, hoje em dia tem que ficar muito atenta, esses tempos estão difíceis, olha que eu sempre vou conferir o portão, sorte sua... - Sorte mesmo, muito obrigada. E fui saindo - Te acompanho até o portão. Conferimos a rua e não havia sinal deles.- Não tem nada estranho não, pode ir - ela disse. Agradeci de novo e resolvi abandonar o projeto de que não me lembro, e voltar pra casa, mais relaxada. Mas eis que, ao dobrar a esquina, quem eu vejo? A temida dupla! - Não adianta, pensei, quando tem que ser, tem que ser! - Aí eles vieram se aproximando na mesma calçada e mais rápido. Atravessei e fiz um movimento de retorno, quando, quem me aparece, de repente, há alguns metros à frente? Jesus! Mais do que depressa, gritei e acenei sem parar: Jesus! Jesus! Jesus! - Os caras, ao verem aquela figura alta, magra, cabelão nos ombros, tez pálida, vestido numa túnica branca hiponga, sorrindo e estendendo os braços para mim, sumiram esbaforidos. Nunca pensei um dia pensar estar sob uma proteção exclusiva de Jesus!
Bom, um detalhe tenho que contar: o Jesus em questão era um ex-aluno meu, o apelido era devido à grata semelhança, mas vamos considerar: esse dia não estaria predestinado ao Jesus cópia cumprir sua missão, a mando do Jesus original ? "
domingo, 10 de maio de 2020
Conversa com o Corona
Vinha eu,em meu sonho, percorrendo uma bela trilha, cheia de árvores, num dia lindo de sol, e cheio de borboletas azuis , quando do farfalhar dos arbustos, quem me surge? Nada menos que o Corona vírus, em pessoa! Dei um salto, coração na mão,olhei pros lados para ver por onde escapava, mas logo ouvi sua voz, suave, por sinal:
- Calma, senhora. O pânico piora as coisas...
. Ele devia ter pouco menos de 1, 50 de altura, menor que eu um pouco, sua barriga subia e descia, parecia de borracha - será que é um robô e alguém estaria me fazendo uma pegadinha? - pensei, mas só balbuciei:
- Co...co...
- COVID-19, prefiro assim, com nome e sobrenome, ele disse.
Recuperei o ar para perguntar, meio que formalmente:
- Seu COVID, o que o traz aqui pelas minhas redondezas?
Ele tirou de dentro de uma das ventosas um celular,em meio a meu assombro:
- Vejo que o GPS daqui tem certas inconsistências, procuro um endereço...
- Mas o senhor tem celular...
- Nessa velocidade com que me espalho, queria que eu não tivesse celular?
Ele me estendeu a telinha do celular. Eu só avancei com o rosto para ver, ainda tremendo.
- A senhora não precisa tremer. Ainda não.
Quando olhei o endereço, com aquele ainda na minha cabeça, constatei que era o meu.
-Mas esse é o meu endereço!
- Prazer, senhora.
Recuei meu corpo. - então o senhor veio me buscar?
- Calma, sou o representante do COVID Corp para a América latina, Brasil. Vim entrevistá-la.
- Ãhn, Corp, quer dizer, uma empresa?
Ele abriu um bocão.Não vi dentes, só uma abertura escura. Deu uma gargalhada.
- Calma, estudamos as condições apropriadas para o nosso sucesso, tanto em relação às pessoas, quanto países.O Brasil é promissor.
- O que quer dizer promissor, vcs estão matando idosos e pessoas vulneráveis !
- Não nos culpem! - vi que ficou irritado - Nossa missão é fazer o mundo olhar para novas perspectivas.
- Como assim?
- Não nos culpem. Se estão morrendo idosos e vulneráveis, é porque não tiveram uma assistência médica adequada.Nem saneamento, nem previdência, se alimentam mal e se aglomeram por qualquer coisinha.
- Mas aqui temos o SUS, referência em vacinas, transplantes...
- Sim, mas despreparado para pandemias, avaliamos.
- Rá, mas também teve rico que faleceu...
- Não tinham dieta adequada, sedentários, estressados ...
- Espera, mas todos eram assim?
- Bom, as vezes há uma certa margem de erro. Mas aproveito que encontrei a senhora ,e entrevisto logo. Vejamos... - consultou o celular.
. Ele devia ter pouco menos de 1, 50 de altura, menor que eu um pouco, sua barriga subia e descia, parecia de borracha - será que é um robô e alguém estaria me fazendo uma pegadinha? - pensei, mas só balbuciei:
- Co...co...
- COVID-19, prefiro assim, com nome e sobrenome, ele disse.
Recuperei o ar para perguntar, meio que formalmente:
- Seu COVID, o que o traz aqui pelas minhas redondezas?
Ele tirou de dentro de uma das ventosas um celular,em meio a meu assombro:
- Vejo que o GPS daqui tem certas inconsistências, procuro um endereço...
- Mas o senhor tem celular...
- Nessa velocidade com que me espalho, queria que eu não tivesse celular?
Ele me estendeu a telinha do celular. Eu só avancei com o rosto para ver, ainda tremendo.
- A senhora não precisa tremer. Ainda não.
Quando olhei o endereço, com aquele ainda na minha cabeça, constatei que era o meu.
-Mas esse é o meu endereço!
- Prazer, senhora.
Recuei meu corpo. - então o senhor veio me buscar?
- Calma, sou o representante do COVID Corp para a América latina, Brasil. Vim entrevistá-la.
- Ãhn, Corp, quer dizer, uma empresa?
Ele abriu um bocão.Não vi dentes, só uma abertura escura. Deu uma gargalhada.
- Calma, estudamos as condições apropriadas para o nosso sucesso, tanto em relação às pessoas, quanto países.O Brasil é promissor.
- O que quer dizer promissor, vcs estão matando idosos e pessoas vulneráveis !
- Não nos culpem! - vi que ficou irritado - Nossa missão é fazer o mundo olhar para novas perspectivas.
- Como assim?
- Não nos culpem. Se estão morrendo idosos e vulneráveis, é porque não tiveram uma assistência médica adequada.Nem saneamento, nem previdência, se alimentam mal e se aglomeram por qualquer coisinha.
- Mas aqui temos o SUS, referência em vacinas, transplantes...
- Sim, mas despreparado para pandemias, avaliamos.
- Rá, mas também teve rico que faleceu...
- Não tinham dieta adequada, sedentários, estressados ...
- Espera, mas todos eram assim?
- Bom, as vezes há uma certa margem de erro. Mas aproveito que encontrei a senhora ,e entrevisto logo. Vejamos... - consultou o celular.
- Hum, a senhora é nº 30046/19 e está no padrão médio, não tem cardiopatia, não é diabética nem hipertensa, hum, fez duas cirurgia dos rins, é sedentária ...
- Isso quer dizer que tenho alguma chance?
- Vou consultar meu chefe. hãn, futuca o celular - Espero ansiosa pela resposta.
- Isso quer dizer que tenho alguma chance?
- Vou consultar meu chefe. hãn, futuca o celular - Espero ansiosa pela resposta.
- Ok, chefe, missão abortada. Ir para área Znit24230, ok.
Eu sorri aliviada com a "missão abortada". Ele pegou uma espécie de apito de outra de suas ventosas. Não saiu nenhum ruído, mas era como se chamasse os outros. Levantei o dedo, tímida..
- Mas antes do senhor ir, posso saber uma coisinha?
Eu sorri aliviada com a "missão abortada". Ele pegou uma espécie de apito de outra de suas ventosas. Não saiu nenhum ruído, mas era como se chamasse os outros. Levantei o dedo, tímida..
- Mas antes do senhor ir, posso saber uma coisinha?
Ele abanou a cabeça .- Vai. Não posso perder tempo.
- Qual a sua missão?
- Mudar os valores. Sem mais - e foi desaparecendo. Ainda gritei:
- Senhor Covid! Senhor Covid! E essa tal Corp , de onde é, da China?
- Mesmo sem quase ver sua imagem, ainda ouvi: - tente uma galáxia!
Acordei.
_________________________________
Crédito da imagem Criador: sebastian coll
- Qual a sua missão?
- Mudar os valores. Sem mais - e foi desaparecendo. Ainda gritei:
- Senhor Covid! Senhor Covid! E essa tal Corp , de onde é, da China?
- Mesmo sem quase ver sua imagem, ainda ouvi: - tente uma galáxia!
Acordei.
_________________________________
Crédito da imagem Criador: sebastian coll
Crédito: Getty Images/iStockphoto
Soneto (Gêmeas)
Hoje, 13 de junho de 2024, nosso aniversário, não poderia ser outra a homenageada. Minha irmã Shirley . Dedico, nesse dia, à minha inesquecível irmã, e a sua presença em minha vida, um soneto de nosso pai, que diz assim:
GÊMEAS*
Nasceram juntas . Ambas pela estrada,
vão vencendo os escolhos da tormenta,
desta vida tão dura e requestada
Uma inquieta, como a passarada,
outra tristonha como ave sedenta;
uma tem a beleza da balada,
outra um encanto a cada instante inventa!
Gêmeas de meu colar de fantasias,
arabescos de amor vãos e imprecisos,
dão luz e cor à paz de uma velhice.
Minhas horas se foram tão vazias,
estiveram repletas dos sorrisos
e sonatas da meiga garrulice!
Gomes, Jary. Da juventude ao ocaso. Niterói, [do autor] , 1990
quinta-feira, 7 de maio de 2020
O que é paciente de alta complexidade
![]() |
| Shirley em bom momento no Placi* |
Em março de
2017, minha irmã teve sua primeira internação, quando sofreu uma síndrome
respiratória aguda, por pneumonia grave, agravada pela DPOC – Doença
Pulmonar Obstrutiva Crônica. Estávamos em
tempos “normais”. Como o quadro era gravíssimo, foi entubada e, na
impossibilidade de permanecer muito tempo nesta situação, optaram por procedimento
de traqueostomia (TQT), para acesso de ventilação mecânica e, posteriormente, pela
gastrostomia (GTT), uma via de alimentação por sonda direta no estômago. Da primeira
emergência até sua alta para o regime de homecare,
ela alternou períodos de intercorrências
ou procedimentos com tratamento em domicílio e, apesar do quadro grave, obteve
uma sobrevida de dois anos e oito meses, quando pôde estar no convívio com
familiares e amigos. Veio a falecer em dezembro de 2019.
Essa
introdução é para dar uma ideia básica do que seja um paciente de alta
complexidade, não do ponto de vista técnico, é claro, mas do experimentado. O que representa, em termos de recursos, um aparato gigantesco, mas necessário para manter-lhe a sobrevida. No caso do COVID19, como recurso para aquele paciente que não consegue
sair da entubação, a
traqueostomia pode ser indicada, porém, além desses recursos, requer atenção
exclusiva de uma equipe, o que só é possível pontualmente.
Alguns termos e nomenclaturas são conhecidos, outros parecem
difíceis, mas ao longo do tempo, nos familiarizamos com alguns deles. Vamos
por categorias* (e ordem alfabética):
Equipamentos - aparelhos de ambiente e específicos:
Aparelho de pressão - Ar condicionado ( máximo
até 22º,) - Aspirador
de TQT (aparelho que se liga ao tubo da tráqueo para retirar secreção que
se acumula nos pulmões)- Balas de oxigênio (o mesmo que cilindros, em geral três) - Bipap ou Cpap (aparelho que controla o
nível de entrada de oxigênio
automaticamente, sem precisar suprir todo o ar que o paciente precisa e
ajudá-lo a respirar). - Cadeira higiênicas
(cadeira para banho) -Cadeira de rodas
- Cama elétrica (com regulação de
altura e inclinação) – Comadre- Concentrador
(equipamento que retira o ar do meio ambiente e o filtra) – Equipamentos de fisioterapia respiratória e de membros(diversos) para evitar a perda muscular-Estetoscópio - Macronebulizador
( conjunto para nebulização ligado direto ao cilindro) - Nebulizador elétrico- Nobreak (gerador à bateria, que entra em operação na queda eventual de luz)- Oxímetro (mede a saturação de oxigênio)-
Ressuscitador manual c máscara (Uma
bomba para queda brusca de oxigênio também chamado de ambu)- Tira-glicemia - Umidificador de ar (para ambientes com secura por condicionador de ar)- Ventilador mecânico (mais em ambiente hospitalar).
Insumos
Agulhas para seringas- Água destilada
– Algodão - Aventais/capas descartáveis - Aerocâmara para puffs- Cateter
intravenoso - Colar fixador de TQT- Coletor de lixo hospitalar - Conectores
(reto e T) - Colchão pneumático Coletor universal estéril- Conjunto
Macronebulização (copo/filtro/máscara) - Cufômetro, Efexor -
Equipo endovenoso infusor/ 2 vias- Extensor para aspiração- Fita hipoalérgica –
Filtro umidificador bacteriano - Fraldas geriátricas - Gaze estéril e não
estéril - Garrote látex - Haste swab - Insumos para tira-glicemia - Lenço umedecido - Luva cirúrgica/
de procedimento/plástica estéril- Máscaras
de prolipropileno - Roupas de cama especiais-Suporte de soro- Seringas sem agulha/seringas com agulhas- Sondas
de aspiração- Swabe álcool -Suporte para soros - Termômetro clínico- Tubo
corrugado - Uro stop- Válvula de TQT.
Ambulâncias para o deslocamentos casa-hospital, com médico e
paramédico.
Medicamentos ( uns de uso contínuo e outros “SOS”, uns
com as mesmas, outros com diferentes indicações, alguns administrados mais de uma vez, e de acordo com o quadro clínico. Apenas para manter o quadro respiratório e clínico estáveis, e proporcionar-lhe conforto ) :
Acetilcisteína (ampola e envelope) – Alprazolam – Aristab – Atrovent - Azitromicina – Azoft colírio- Bamifix
– Bromoprida – Captropril – Clorexidina – Cloridrato de Cefepima – Cloreto de sódio(soro) - Duovent (inalatório)-
Dimorf –Dermaex (tópico)- Dimeticona- Dipirona sódica – Eritromicina - Fenoterol
(inalatório)- Floratil – Humolin (injt.) – Lidocaína intram. –
Mirtazapina – Movilax - Novolin – Pantoprazol - Prednisona – Quetiapina – Reparil
tópico - Symbcort –Tiorfan- Venlafaxina- Versani tópico.
Suplementos alimentares para GTT e produtos de higiene e
assepsia, além dos utilizados no hospital, como outros antibióticos e anticoagulantes,
não incluídos aqui.
Pessoal No
hospital o padrão são médicos, enfermeiros e técnicos, fisioterapeutas, pessoal
de laboratório e imagem; em domicílio:
médicos, enfermeiras, técnicos de laboratório particulares, técnicos de
enfermagem (plantonistas), fisioterapeutas, fonoaudiólogos, dentistas, oftalmologistas, nutricionistas e terapeutas ocupacionais e de saúde mental.
A sobrevida, embora limitada, manteve-a
lúcida, até os órgãos apresentarem falência. A DPOC é incurável, mas muitos
acometidos permanecem estáveis até idade bem avançada. Minha irmã tinha 73
anos.
Nota Ver http://sbccp.org.br/artigos-cientificos-para-covid-19/(Sociedade Brasileira de Cirurgia de Cabeça e Pescoço).
*Equipamentos, insumos e medicamentos listados foram
pesquisados nas notas de entrega do Homecare.
*Placi é um hospital de Cuidados Extensivos, em NiteróiRJ
terça-feira, 14 de abril de 2020
Eu imagino o que você diria (de Sheila@Terra para Shirley@Céu)
(Inspirado em crônicas de Elio Gaspari, "conversando" com pessoas que partiram deste mundo)
Planeta Terra, Abril de 2020

"Conversa" imaginária com minha irmã Shirley que faleceu em dezembro de 2019, por insuficiência respiratória aguda, causada por DPOC (Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica), antes que a COVID a levasse.
Planeta Terra, Abril de 2020

Minha querida irmã. Abril terminando e eu relutando em ter essa conversa com você porque é triste, mas aí vai. Por pouco, muito pouco tempo mesmo, você não viu algo impensável e tão avassalador, que hoje atinge os povos desse planeta. Uma nova pandemia! Você diria, com seu jeito direto: - "pandemia, mas quantas não tivemos? As pragas bíblicas, a peste negra, a varíola, a pólio, a espanhola, o Ebola, a suína, enfim..." - Mas, essa, minha irmã, é uma terrível mutação, o novo Coronavírus chamado também COVID-19 ou SARS-Cov2. Com tantos nomes pomposos e tantos estragos, o carrasco avança sobre todos, como uma sombra. E sua marca letal é a síndrome respiratória aguda. Você diria, do alto de sua experiência: - "Sei muito bem o que é insuficiência respiratória, aparelhos de oxigênio, bpaps, cpaps, concentradores, ventiladores, aspiradores, filtros, oxímetro, cânulas e aquela parafernália toda... mas vai passar, outras tantas não passaram?". Sim, passará, mas difícil tirar de sua retina a imagem das ruas vazias, a solidão das pessoas trancadas em casa, a distância a guardar, o silêncio das cidades, quebrado por sirenes e megafones gritando "fiquem em casa!". E você acrescentaria - "pra mim não fazia diferença, afinal, lembra que eu disse um dia a vocês que "meu verbo era ficar"? - Mas a molécula do diabo, além de penetrar nas mucosas, se espalha sobre objetos, superfícies de qualquer natureza. Luvas, água e sabão, álcool em gel, máscaras, em pouco mais de um mês se tornaram as estrelas da sobrevivência, somadas ao isolamento. Ativa mesmo somente uma aldeia gigante de médicos, paramédicos, engenheiros, especialistas, frenéticos, confinados em suas bolhas, nas unidades de saúde, hospitais, laboratórios, ambulâncias, fábricas de insumos e medicamentos. E a mídia de plantão, por dever de ofício, com a narrativa macabra da entrada de enfermos como fornadas de pão e os números da morte. Nas ruas, batalhões de agentes de todo tipo, trabalhando com tudo o que é essencial, somente o essencial. Outro tanto prestando solidariedade aos mais atingidos, os mais pobres. Uma paradeira e ao mesmo tempo, um frisson sinistro. Quando que você pensaria viver uma realidade dessa, nesse mundão sedento de consumo e badulaques? Algo nunca visto, minha irmã, nunca! Vejo logo você dizendo: - "De essencial eu entendo, nos últimos anos, pra mim, um simples passear no corredor, sentar, um banho rápido, um gole d´água, as mínimas coisas, era tudo que eu podia curtir. A minha maior alegria foi a presença de vocês"- Pois é, sequer as famílias podem visitar seus doentes, você nem ia abraçar seus netos como abraçou, suas filhas como abraçou; e nem mesmo ser velada, as pessoas não podem velar seus mortos, porque o contágio vai além da morte! As imagens do batalhão de amigos e parentes, que compareceu à sua despedida, eram tantos, que hoje seria impossível acontecer. Como pensar que, um dia estamos sadios e, no seguinte, entubados, pelos corredores de hospitais, sem nenhum acompanhante.. Até o momento, irmã, o Corona já colecionou milhões e já devorou, insaciável, mais de centenas de mil vidas, diante de uma humanidade atônita. Mas vejo você, me dizendo: - "sei que você é cética, mas será que não é o prenúncio do fim-do-mundo, e esse vírus não é só um mensageiro de Deus? Ainda bem que fui embora antes" - E eu, com a minha visão que você chamava de "materialista", responderia - "Nada, isso é consequência do que fazemos com o planeta. Pode apostar; o vírus vem da manipulação de animais silvestres". Você faria uma muxoxo, e diria, laconicamente: - "Não sei, eu prefiro rezar por vocês e por todos aí na terra" E eu ainda mandaria a frase de Saint-Éxupéry, "o essencial é invisível para os olhos"...e você concluiria: - "Deus também é invisível para os olhos. Até.." E nos despediríamos.
.
segunda-feira, 16 de março de 2020
Como me tornei bibliotecária pela segunda vez
Ao me formar, vi-me embaraçada com códigos e
normas na cabeça, dos quais não podia me
descolar, sem prejuízo de me ver reprovada em concursos e provas de seleção. E
numa dessas provas, novata, caí num departamento de informática (na época Processamento
de Dados) de empresa estatal. Era o ano de 1971! Na nossa área
era um tempo de transição das vetustas
fichas catalográficas, que se multiplicavam nos arquivos de muitas bibliotecas; para nós, os também pouco menos vetustos e alentados relatórios impressos,
que vinham de um processo complexo de preenchimento de formulários, para depois a operação de enormes lotes de fichas
perfuradas (sim, eu as vi!), a armazenarem em rolos e mais rolos de fita
magnética e, ufa!, finalmente, uma impressora IBM, dava oponto final, todos equipamentos enormes,
mastodontes. Mas compensaram, não me
queixo, eles produziam ótimos e pesados catálogos de autor, título e
assunto; a trabalheira era dos técnicos para atualizar os backups. Pouco antes
de eu sair, entre meados dos anos 80 e início de 90, começaram a vir a nós os miúdos PCs
e a maravilha Windows, mas vejam vocês,
não cheguei a deixar nem os vetustos relatórios, nem pegar o auspicioso PC ou microcomputador! A estatal
se esfarelou. Tanta coisa aconteceu que nem percebi os vinte anos que passaram , nem me lembrei de questionar o to be or not to be. Eu
sentia um vago vazio que me impulsionou
a estudar Ciências Sociais, para fugir da aridez técnica e buscar mais, digamos, humanidade na profissão. Não demorou, lá estava eu
numa biblioteca comunitária e não tardou a piscar a luzinha da resposta.
Depois, veio o concurso para as bibliotecas populares do Município de Niterói e
a luz ficou mais forte. Confesso que vim a me reconciliar de verdade com a profissão, quando me envolvi nessas
últimas experiências. Foi como me tornar bibliotecária pela segunda vez. E era muito mais
simples do que podia supor. Constatar como aquele ambiente, que oferece o
mundo a pessoas com pouco ou nenhum
acesso a livros, é fundamental, quando
elas passam a incorporar, espontaneamente, a ida à biblioteca ao seu cotidiano.
Aí você percebe a razão de ser de sua profissão.
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