terça-feira, 14 de abril de 2020

Eu imagino o que você diria (de Sheila@Terra para Shirley@Céu)

(Inspirado em crônicas de Elio Gaspari, "conversando" com pessoas que partiram deste mundo)

Planeta Terra, Abril de 2020 

                                           
Como o coronavírus vai ganhar um novo nome e por que isso é ...
Minha querida irmã. Abril terminando e eu relutando em ter essa conversa com você porque é triste, mas aí vai. Por pouco, muito pouco  tempo mesmo, você não viu algo impensável e  tão  avassalador, que hoje atinge os povos desse planeta. Uma nova pandemia! Você diria, com seu jeito direto: - "pandemia, mas quantas não tivemos? As pragas bíblicas, a peste negra, a varíola, a pólio, a espanhola, o Ebola,  a  suína, enfim..." -   Mas, essa, minha irmã,  é uma terrível mutação, o novo Coronavírus chamado também  COVID-19 ou SARS-Cov2. Com tantos nomes pomposos  e tantos estragos, o carrasco  avança sobre todos, como uma sombra. E sua marca letal é a síndrome respiratória aguda. Você diria, do alto de sua experiência: - "Sei muito bem o que é insuficiência respiratória, aparelhos de oxigênio, bpaps, cpaps, concentradores, ventiladores, aspiradores,  filtros, oxímetro, cânulas  e aquela parafernália toda... mas vai passar, outras tantas não passaram?". Sim, passará, mas difícil tirar de sua retina a imagem das ruas vazias, a solidão das pessoas trancadas em casa, a distância a guardar, o silêncio das cidades, quebrado por sirenes e megafones gritando "fiquem em casa!".  E você acrescentaria - "pra mim não fazia diferença, afinal, lembra que eu disse um dia a vocês que "meu verbo era ficar"? -  Mas a molécula do diabo, além de penetrar nas mucosas, se espalha sobre objetos, superfícies de qualquer natureza. Luvas, água e sabão, álcool em gel, máscaras, em pouco mais de um mês se tornaram as estrelas da sobrevivência, somadas ao isolamento. Ativa mesmo somente  uma aldeia gigante de médicos, paramédicos, engenheiros, especialistas, frenéticos, confinados em suas bolhas, nas unidades de saúde, hospitais, laboratórios, ambulâncias, fábricas de insumos e medicamentos. E a mídia de plantão, por dever de ofício, com a narrativa macabra da entrada de enfermos como fornadas de pão e os números da morte. Nas ruas, batalhões de agentes de todo tipo, trabalhando com tudo o que é essencial, somente o essencial. Outro tanto prestando solidariedade aos mais atingidos, os mais pobres. Uma paradeira e ao mesmo tempo, um frisson sinistro. Quando que você pensaria viver uma realidade dessa, nesse mundão sedento de consumo e badulaques? Algo nunca visto, minha irmã, nunca! Vejo logo você dizendo: - "De essencial eu entendo, nos últimos anos, pra mim, um simples passear no corredor, sentar, um  banho rápido, um gole d´água, as mínimas coisas, era  tudo que eu podia curtir. A  minha maior alegria foi a presença de vocês"- Pois é, sequer as famílias podem visitar seus doentes, você nem ia abraçar seus netos como abraçou, suas filhas como abraçou; e nem mesmo ser velada, as pessoas não podem velar seus mortos, porque o contágio vai além da morte! As imagens  do batalhão de amigos e parentes, que compareceu à sua despedida, eram tantos, que hoje seria impossível acontecer. Como pensar  que, um dia estamos sadios e, no seguinte, entubados, pelos corredores de hospitais, sem nenhum acompanhante.. Até o momento, irmã, o Corona já colecionou  milhões e já devorou, insaciável, mais de centenas de mil vidas, diante de uma humanidade atônita. Mas vejo você, me dizendo: - "sei que você é cética, mas será que não é o prenúncio do fim-do-mundo, e esse vírus não é só um mensageiro de Deus? Ainda bem que fui embora antes" -  E eu, com a minha visão  que você chamava de "materialista" responderia - "Nada,  isso é consequência do que fazemos  com o planeta. Pode apostar; o  vírus vem da manipulação de animais silvestres". Você faria uma muxoxo, e diria, laconicamente: - "Não sei, eu prefiro  rezar por vocês e por todos aí na terra" E eu ainda mandaria a   frase de Saint-Éxupéry, "o  essencial  é invisível para os olhos"...e você concluiria: -  "Deus também é invisível para os olhos. Até.."  E nos despediríamos.
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"Conversa"  imaginária com  minha irmã Shirley que faleceu em dezembro de 2019, por insuficiência respiratória aguda,  causada por DPOC (Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica), antes que a COVID a levasse.

segunda-feira, 16 de março de 2020

Como me tornei bibliotecária pela segunda vez


                             
Resultado de imagem para bibliotecas desenhoComemoramos, no último dia 12 de Março, a nossa data e, como todas as datas profissionais  servem para a gente se perguntar porque você mesma se enveredou por esse ofício, resolvi fazê-lo. A primeira coisa que me ocorreu ter “amor por livros e leitura”; a segunda é que meu temperamento pacato cabia em uma profissão assim; a terceira era a curiosidade que você podia saciar todos os dias. Sim, eu preenchia esses requisitos  mas, ao longo do tempo, vi que eram requisitos flexíveis. Primeiro, que nem todos os bibliotecários  eram leitores habituais; segundo que, tenha o  temperamento que tiver, não tem como fugir ao teste da sociabilidade, ora com o público, ora com colegas, ora com a gestão. Por último, por mais curioso que você seja, não haverá tempo para suprir a curiosidade.
Ao me formar, vi-me embaraçada com códigos e normas na cabeça, dos quais  não podia me descolar, sem prejuízo de me ver reprovada em concursos e provas de seleção. E numa dessas provas, novata, caí num departamento de informática (na época Processamento de Dados) de empresa estatal. Era o ano de 1971! Na nossa área era um tempo de transição  das vetustas fichas catalográficas, que se multiplicavam nos arquivos de muitas bibliotecas;  para nós,  os também pouco menos  vetustos e alentados relatórios impressos, que vinham de um processo complexo de preenchimento de formulários, para   depois a operação de enormes lotes de fichas perfuradas (sim, eu as vi!), a armazenarem em rolos e mais rolos de fita magnética e, ufa!, finalmente,  uma impressora IBM, dava oponto final, todos equipamentos enormes, mastodontes. Mas compensaram,  não me queixo, eles produziam ótimos e  pesados catálogos de autor, título e assunto; a trabalheira era dos técnicos para atualizar os backups. Pouco antes de eu sair, entre meados dos anos 80 e início de 90, começaram a vir a nós os miúdos PCs e a maravilha  Windows, mas vejam vocês, não cheguei a deixar nem os vetustos relatórios, nem pegar o auspicioso PC ou microcomputador! A estatal se esfarelou. Tanta coisa aconteceu que nem percebi os vinte anos que passaram , nem me lembrei de questionar o to be or not to be. Eu sentia um vago vazio que me impulsionou  a estudar Ciências Sociais, para fugir da aridez técnica e buscar mais, digamos, humanidade na profissão. Não demorou, lá estava eu numa biblioteca comunitária e não tardou a piscar a luzinha da resposta. Depois, veio o concurso para as bibliotecas populares do Município de Niterói e a luz ficou mais forte. Confesso que vim a me reconciliar de verdade  com a profissão, quando me envolvi nessas últimas experiências. Foi como  me tornar bibliotecária pela segunda vez.   E era muito mais simples do que  podia supor.  Constatar como aquele ambiente, que oferece o mundo a pessoas  com pouco ou nenhum acesso a livros,  é fundamental, quando elas passam a incorporar, espontaneamente, a ida à biblioteca ao seu cotidiano. Aí você percebe a razão de ser de sua profissão.

domingo, 22 de dezembro de 2019

É Natal


   

   Tantos natais já vi passar. Muitos mesmo. E ao longo dos anos, todos com cara de um filme em preto-e-branco, cores que habitam o passado. Mas ela está na minha retina, ainda em cores vivas, tão recente se foi. Uma sensação estranha, uma aflição de bebê na ausência dos pais, mas que logo se acalma, porque algum sinal de retorno virá. Só que não há mais retorno. Só a sensação incômoda de não ter dito tudo, não ter feito tudo, não ter agradecido mais, abraçado mais, curtido mais, a sensação de que não deu tempo. Resta a memória ansiosa tentando recuperar a voz, tentando fruir de sua alma na leitura de seus textos e suas imagens, felizmente  ainda fartos.  
 Que venha o Natal que, de tempos em tempos, marca uma ausência, catalizador de dores e lembranças com todo seu alarido de festa. O Feliz Natal ou todas as ditas "datas felizes" dão a dimensão justamente de nossa carência de felicidade. 
 Que venha mais um Natal, subtraído dos que se foram. 
 Que venha o primeiro Natal sem você, minha irmã querida.





                                                                                           A Shirley 13/06/1946 -5/12/2019