Planeta Terra, Abril de 2020

Minha querida irmã. Abril terminando e eu relutando em ter essa conversa com você porque é triste, mas aí vai. Por pouco, muito pouco tempo mesmo, você não viu algo impensável e tão avassalador, que hoje atinge os povos desse planeta. Uma nova pandemia! Você diria, com seu jeito direto: - "pandemia, mas quantas não tivemos? As pragas bíblicas, a peste negra, a varíola, a pólio, a espanhola, o Ebola, a suína, enfim..." - Mas, essa, minha irmã, é uma terrível mutação, o novo Coronavírus chamado também COVID-19 ou SARS-Cov2. Com tantos nomes pomposos e tantos estragos, o carrasco avança sobre todos, como uma sombra. E sua marca letal é a síndrome respiratória aguda. Você diria, do alto de sua experiência: - "Sei muito bem o que é insuficiência respiratória, aparelhos de oxigênio, bpaps, cpaps, concentradores, ventiladores, aspiradores, filtros, oxímetro, cânulas e aquela parafernália toda... mas vai passar, outras tantas não passaram?". Sim, passará, mas difícil tirar de sua retina a imagem das ruas vazias, a solidão das pessoas trancadas em casa, a distância a guardar, o silêncio das cidades, quebrado por sirenes e megafones gritando "fiquem em casa!". E você acrescentaria - "pra mim não fazia diferença, afinal, lembra que eu disse um dia a vocês que "meu verbo era ficar"? - Mas a molécula do diabo, além de penetrar nas mucosas, se espalha sobre objetos, superfícies de qualquer natureza. Luvas, água e sabão, álcool em gel, máscaras, em pouco mais de um mês se tornaram as estrelas da sobrevivência, somadas ao isolamento. Ativa mesmo somente uma aldeia gigante de médicos, paramédicos, engenheiros, especialistas, frenéticos, confinados em suas bolhas, nas unidades de saúde, hospitais, laboratórios, ambulâncias, fábricas de insumos e medicamentos. E a mídia de plantão, por dever de ofício, com a narrativa macabra da entrada de enfermos como fornadas de pão e os números da morte. Nas ruas, batalhões de agentes de todo tipo, trabalhando com tudo o que é essencial, somente o essencial. Outro tanto prestando solidariedade aos mais atingidos, os mais pobres. Uma paradeira e ao mesmo tempo, um frisson sinistro. Quando que você pensaria viver uma realidade dessa, nesse mundão sedento de consumo e badulaques? Algo nunca visto, minha irmã, nunca! Vejo logo você dizendo: - "De essencial eu entendo, nos últimos anos, pra mim, um simples passear no corredor, sentar, um banho rápido, um gole d´água, as mínimas coisas, era tudo que eu podia curtir. A minha maior alegria foi a presença de vocês"- Pois é, sequer as famílias podem visitar seus doentes, você nem ia abraçar seus netos como abraçou, suas filhas como abraçou; e nem mesmo ser velada, as pessoas não podem velar seus mortos, porque o contágio vai além da morte! As imagens do batalhão de amigos e parentes, que compareceu à sua despedida, eram tantos, que hoje seria impossível acontecer. Como pensar que, um dia estamos sadios e, no seguinte, entubados, pelos corredores de hospitais, sem nenhum acompanhante.. Até o momento, irmã, o Corona já colecionou milhões e já devorou, insaciável, mais de centenas de mil vidas, diante de uma humanidade atônita. Mas vejo você, me dizendo: - "sei que você é cética, mas será que não é o prenúncio do fim-do-mundo, e esse vírus não é só um mensageiro de Deus? Ainda bem que fui embora antes" - E eu, com a minha visão que você chamava de "materialista", responderia - "Nada, isso é consequência do que fazemos com o planeta. Pode apostar; o vírus vem da manipulação de animais silvestres". Você faria uma muxoxo, e diria, laconicamente: - "Não sei, eu prefiro rezar por vocês e por todos aí na terra" E eu ainda mandaria a frase de Saint-Éxupéry, "o essencial é invisível para os olhos"...e você concluiria: - "Deus também é invisível para os olhos. Até.." E nos despediríamos.
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