Ao me formar, vi-me embaraçada com códigos e
normas na cabeça, dos quais não podia me
descolar, sem prejuízo de me ver reprovada em concursos e provas de seleção. E
numa dessas provas, novata, caí num departamento de informática (na época Processamento
de Dados) de empresa estatal. Era o ano de 1971! Na nossa área
era um tempo de transição das vetustas
fichas catalográficas, que se multiplicavam nos arquivos de muitas bibliotecas; para nós, os também pouco menos vetustos e alentados relatórios impressos,
que vinham de um processo complexo de preenchimento de formulários, para depois a operação de enormes lotes de fichas
perfuradas (sim, eu as vi!), a armazenarem em rolos e mais rolos de fita
magnética e, ufa!, finalmente, uma impressora IBM, dava oponto final, todos equipamentos enormes,
mastodontes. Mas compensaram, não me
queixo, eles produziam ótimos e pesados catálogos de autor, título e
assunto; a trabalheira era dos técnicos para atualizar os backups. Pouco antes
de eu sair, entre meados dos anos 80 e início de 90, começaram a vir a nós os miúdos PCs
e a maravilha Windows, mas vejam vocês,
não cheguei a deixar nem os vetustos relatórios, nem pegar o auspicioso PC ou microcomputador! A estatal
se esfarelou. Tanta coisa aconteceu que nem percebi os vinte anos que passaram , nem me lembrei de questionar o to be or not to be. Eu
sentia um vago vazio que me impulsionou
a estudar Ciências Sociais, para fugir da aridez técnica e buscar mais, digamos, humanidade na profissão. Não demorou, lá estava eu
numa biblioteca comunitária e não tardou a piscar a luzinha da resposta.
Depois, veio o concurso para as bibliotecas populares do Município de Niterói e
a luz ficou mais forte. Confesso que vim a me reconciliar de verdade com a profissão, quando me envolvi nessas
últimas experiências. Foi como me tornar bibliotecária pela segunda vez. E era muito mais
simples do que podia supor. Constatar como aquele ambiente, que oferece o
mundo a pessoas com pouco ou nenhum
acesso a livros, é fundamental, quando
elas passam a incorporar, espontaneamente, a ida à biblioteca ao seu cotidiano.
Aí você percebe a razão de ser de sua profissão.
segunda-feira, 16 de março de 2020
Como me tornei bibliotecária pela segunda vez
domingo, 22 de dezembro de 2019
É Natal

Tantos natais já vi passar. Muitos mesmo. E ao longo dos anos, todos com cara de um filme em preto-e-branco, cores que habitam o passado. Mas ela está na minha retina, ainda em cores vivas, tão recente se foi. Uma sensação estranha, uma aflição de bebê na ausência dos pais, mas que logo se acalma, porque algum sinal de retorno virá. Só que não há mais retorno. Só a sensação incômoda de não ter dito tudo, não ter feito tudo, não ter agradecido mais, abraçado mais, curtido mais, a sensação de que não deu tempo. Resta a memória ansiosa tentando recuperar a voz, tentando fruir de sua alma na leitura de seus textos e suas imagens, felizmente ainda fartos.
Que venha o Natal que, de tempos em tempos, marca uma ausência, catalizador de dores e lembranças com todo seu alarido de festa. O Feliz Natal ou todas as ditas "datas felizes" dão a dimensão justamente de nossa carência de felicidade.
Que venha mais um Natal, subtraído dos que se foram.
Que venha o primeiro Natal sem você, minha irmã querida.
Que venha mais um Natal, subtraído dos que se foram.
Que venha o primeiro Natal sem você, minha irmã querida.
A Shirley 13/06/1946 -5/12/2019
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